Sidrônio Moreira vive sem acesso regular à água encanada e agora aguarda uma posição oficial da Agência Nacional do Petróleo (ANP) sobre a possível descoberta.
Agricultor que encontrou possível petróleo no Ceará diz que prefere água para viver
O agricultor cearense Sidrônio Moreira ganhou notoriedade após encontrar um líquido semelhante a petróleo enquanto perfurava um poço em busca de água em seu sítio, localizado na zona rural de Tabuleiro do Norte, no interior do Ceará. Apesar da repercussão da descoberta, ele afirma que sua maior necessidade continua sendo algo muito mais simples: água.
“Se pudesse escolher entre petróleo e água, eu preferia água”, diz Sidrônio, que vive no local com a esposa e dois filhos. A equipe do g1 visitou a propriedade da família para entender como a rotina do agricultor mudou desde o achado.
A substância escura surgiu durante a perfuração de um poço no quintal da propriedade. No momento em que o líquido começou a jorrar, Sidrônio comemorou acreditando ter encontrado água. No entanto, dias depois, surgiu a suspeita de que o material poderia ser petróleo.
Desde então, o agricultor passou a receber diversas visitas de curiosos, técnicos e moradores da região. A visita mais aguardada, porém, era a da Agência Nacional do Petróleo (ANP), que só ocorreu nesta quinta-feira (12), sete meses após o órgão ser oficialmente informado sobre a descoberta.
Agora, a família aguarda o resultado de um laudo técnico da ANP, que deverá confirmar se a substância encontrada é realmente petróleo.
Busca por água motivou perfuração
Sidrônio explica que decidiu perfurar o poço por causa da dificuldade de acesso à água na região. Caso a descoberta seja confirmada e ele receba algum tipo de compensação financeira no futuro, já sabe qual será sua prioridade.
“Se desse alguma renda para mim, a primeira coisa que eu faria era furar um poço artesiano. O que eu preciso mesmo é de água”, afirma.
A escassez hídrica já impactou diretamente a produção no sítio. Segundo ele, alguns animais tiveram que ser vendidos por falta de água.
“Eu tinha uns porcos muito bons. Um dia cheguei e eles estavam morrendo de sede no sol. Aquilo me deu uma agonia tão grande que resolvi vender”, conta.
Vida simples no interior
Sidrônio mora no Sítio Santo Estevão, uma propriedade de cerca de 48 hectares herdada do pai. Para chegar à residência da família, é necessário percorrer quase uma hora de estrada de terra, já que o local fica a aproximadamente 35 quilômetros do centro de Tabuleiro do Norte.
A água utilizada pela família vem de diferentes fontes: uma adutora da região, caminhões-pipa enviados pela prefeitura e água mineral comprada mensalmente. Mesmo assim, o abastecimento é considerado insuficiente.
Atualmente, a renda da família vem basicamente das aposentadorias de Sidrônio e da esposa, que somam dois salários mínimos, além do trabalho do filho mais velho no sítio.
Apesar da repercussão da descoberta e das propostas que já recebeu para vender a propriedade, ele não pretende deixar o local.
“Muita gente já quis comprar o terreno, mas eu nem deixo terminar de falar. Eu não quero vender. Quero é que resolvam logo essa situação para a gente poder ter um poço aqui”, afirma.
Apelido de “novo sheik”
A descoberta virou assunto na cidade e Sidrônio passou a receber inúmeras ligações e visitas. Entre os moradores da região, ganhou até um apelido curioso: “novo sheik”.
Mesmo assim, ele diz que continua levando uma vida simples e não espera ficar rico com a possível descoberta.
“Eu não quero riqueza. Quero dinheiro só para sobreviver. O que vale mesmo é a saúde da pessoa”, diz.
Ele também conta que algumas pessoas sugeriram que mantivesse a descoberta em segredo, mas decidiu compartilhar a história.
“Já me disseram para fechar o portão do sítio e não contar para ninguém. Mas como eu vou tirar a dúvida do que é isso se eu ficar calado?”, questiona.
Possível relação com área petrolífera
A substância foi encontrada em novembro de 2024, durante a perfuração do primeiro poço na propriedade. Um vídeo gravado pela família mostra o momento em que o líquido escuro emerge do solo.
Tabuleiro do Norte está localizado a cerca de 210 quilômetros de Fortaleza, na região do Vale do Jaguaribe, próximo à divisa com o Rio Grande do Norte.
A área fica relativamente próxima da Bacia Potiguar, uma importante região de exploração de petróleo que se estende entre os dois estados. Embora o município não esteja dentro de um bloco oficial de exploração, o local onde a substância foi encontrada fica a aproximadamente 11 quilômetros do bloco mais próximo.
O que acontece se for petróleo?
Mesmo que o laudo confirme que o líquido encontrado seja petróleo, Sidrônio não poderá explorá-lo ou comercializá-lo. No Brasil, os recursos minerais do subsolo pertencem à União, conforme estabelece a legislação.
Nesse caso, caberá à Agência Nacional do Petróleo (ANP) avaliar a área e decidir sobre eventuais estudos ou exploração futura.
Enquanto aguarda o resultado da análise, o agricultor segue com a mesma expectativa que tinha antes da descoberta: conseguir água suficiente para manter a família e a produção no sítio.



