Alta do diesel reacende ameaça de greve dos caminhoneiros e coloca governo Lula em alerta

Com combustível mais caro após a guerra no Oriente Médio, lideranças da categoria pressionam por novas medidas, e Planalto tenta evitar paralisação com impacto econômico e político

A ameaça de uma nova greve dos caminhoneiros voltou ao radar do governo federal e já provoca apreensão no Palácio do Planalto em pleno ano eleitoral. Lideranças da categoria em diferentes regiões do país discutem a possibilidade de paralisação diante da disparada do preço do diesel, em um movimento que remete à crise de 2018 e acende um alerta sobre abastecimento, inflação e desgaste político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O estopim da insatisfação é a alta do diesel nas últimas semanas. Segundo dados citados pela Reuters e por publicações com base no painel da ValeCard, o preço médio do diesel S-10 subiu cerca de 19% desde 28 de fevereiro, quando a escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã passou a pressionar o mercado internacional de petróleo. A alta colocou novamente os custos do transporte no centro do debate econômico brasileiro.

Em meio à pressão, o governo correu para apresentar medidas emergenciais. Nos últimos dias, o Planalto zerou tributos federais sobre o diesel e anunciou reforço na fiscalização do piso mínimo do frete, com punições mais duras para empresas reincidentes no descumprimento da tabela. O Ministério dos Transportes e a ANTT afirmaram que pretendem ampliar o monitoramento das operações e apertar o cerco contra infratores.

Além disso, o governo propôs aos estados zerar temporariamente o ICMS sobre a importação do diesel, com compensação de 50% das perdas pela União. Segundo a Agência Brasil, a medida teria validade até 31 de maio e pode gerar renúncia de cerca de R$ 3 bilhões por mês, metade bancada pelo governo federal.

As ações, porém, ainda não foram suficientes para pacificar o setor. Wallace Landim, o Chorão, presidente da Abrava, afirmou que os caminhoneiros estão mais organizados do que em 2018 e sustentou que muitos profissionais estão “pagando para trabalhar” diante da escalada dos custos. A avaliação entre lideranças é de que a crise atual tem motivação econômica, e não política, o que eleva o risco de adesão real a uma paralisação.

A tensão aumentou ainda mais porque, depois das primeiras medidas de alívio anunciadas pelo governo, a Petrobras elevou em R$ 0,38 por litro o preço do diesel A vendido às distribuidoras, reajuste que entrou em vigor em 14 de março. Mesmo após a alta, reportagens baseadas em dados de mercado mostram que o preço interno ainda segue abaixo da referência internacional, o que mantém o temor de novos ajustes à frente.

O fantasma de 2018 ajuda a explicar a preocupação do governo. Naquele ano, uma greve nacional de caminhoneiros durou cerca de dez dias, interrompeu cadeias de abastecimento e expôs a dependência do país do transporte rodoviário. Agora, embora analistas não vejam ainda sinais claros de uma paralisação com a mesma dimensão, o receio é de que mesmo bloqueios pontuais já sejam suficientes para provocar desorganização logística e ampliar a pressão inflacionária.

Para Lula, o problema é duplo. Além do efeito econômico imediato, uma greve dos caminhoneiros em ano eleitoral teria peso simbólico e político, especialmente porque o preço do diesel já aparece como um dos temas mais sensíveis da campanha. A própria Reuters destacou que o diesel se tornou uma questão urgente para o governo em meio à tentativa de reeleição do presidente.

Por enquanto, o cenário ainda é de ameaça e negociação. O governo tenta ganhar tempo com medidas tributárias e de fiscalização, enquanto lideranças da categoria avaliam se os anúncios atendem minimamente às reivindicações. Mas, com o petróleo pressionado pela crise no Oriente Médio e os custos do frete em alta, a possibilidade de mobilizações nos próximos dias segue no radar de Brasília.