As mulheres que se arrependem de serem mães: ‘Uma armadilha impossível de escapar’

Da lamentação pela vida que não têm mais à sensação de pressão constante, mulheres dizem à BBC por que se arrependem de se tornarem mães.

Carmen adora seu filho de 10 anos de idade. Mas ela conta que, se pudesse voltar no tempo, nunca teria sido mãe.

“A maternidade acabou com a minha saúde, meu tempo, meu dinheiro, minha força e meu corpo”, segundo ela. “O preço é alto demais e o custo é para sempre.”

 

Carmen é professora e está na casa dos 40 anos. Ela faz parte de uma comunidade oculta de mulheres que se arrependem de terem tido filhos.

Este arrependimento raramente é expresso em voz alta.

As mulheres que entraram em contato com a reportagem só concordaram em contar como se sentem em condição de anonimato. Elas receiam ser objeto de julgamentos severos e suas famílias não conhecem seu sentimento.

Carmen tentou expressar seu arrependimento em palavras em um fórum geral de pais há alguns anos. Ela conta que algumas pessoas demonstraram empatia, mas outras reagiram como se ela fosse “um monstro”.

As extremas pressões e sacrifícios que podem envolver a maternidade são retratadas no filme Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. Sua protagonista, Rose Byrne, concorreu ao Oscar de melhor atriz de 2026, vencido por Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet).

Byrne oferece um retrato visceral de uma mãe desgastada, que se sente sozinha na luta para atender às necessidades de sua filha e manter a estrutura da vida familiar.

Carmen se identifica com o tema do filme.

“A maternidade é um trabalho sem fim que você faz mesmo quando não quer, pois uma pequena pessoa depende de você”, ela conta. “Parece uma armadilha da qual você não consegue escapar.”

 

Ela é inflexivelmente sincera ao expressar como ela acha que ser mãe é “devastador”.

Mas o brilho na sua voz é perceptível quando pergunto sobre seu filho, Teo (nome fictício).

“Teo não tem nada a ver com meu arrependimento”, ela conta. “Ele é um menino fantástico e adorável, que eu amo intensamente.”

“Daria minha vida por ele, sem dúvida. Ele é gentil, fácil de se lidar e um aluno brilhante.”

 

Para a psicoterapeuta Anna Mathur, “muitas vezes, quando as mulheres sentem segurança suficiente para falar sobre o arrependimento maternal, o que aflora não é falta de amor, mas a sensação de isolamento, exaustão ou perda de identidade”.

Carmen se descreve como perfeccionista. Ela considera difícil suportar a responsabilidade de criar “um bom cidadão, uma pessoa boa e feliz”.

Carmen prometeu a si mesma que Teo nunca se sentiria como ela enquanto crescesse. Ela vem de uma família pobre e disfuncional, “onde a violência era a linguagem principal” e nunca se sentiu amada.

Inicialmente, ser mãe era “uma alegria”, ela conta. Teo dormia bem e ela gostava dos dias que passava cuidando do seu bebê, quando estava em licença-maternidade.

Mas tudo mudou quando seu filho começou a mostrar sérios atrasos de desenvolvimento. “Cada momento simples se transformou em motivo de observação e preocupação”, segundo Carmen.

“Eu me senti muito culpada”, ela conta, “e receei que sua vida se tornaria uma luta.”
Por fim, Teo não foi diagnosticado com as condições temidas por Carmen. Agora, ele se sai bem, mas a mãe afirma que o estresse e a preocupação constante fizeram com que ela desenvolvesse uma doença autoimune.

Relacionar o arrependimento materno a pais negligentes e pouco amorosos é uma conclusão precipitada, segundo a socióloga israelense Orna Donath, autora do livro Regretting Motherhood: A Study (“Maternidade arrependida: um estudo”, em tradução livre).

Donath entrevistou 23 mães. Cada uma delas enfatizou a diferença entre seus sentimentos de arrependimento da maternidade e como elas se sentiam em relação aos seus filhos.

Diversas se sentiam enganadas pela maternidade porque a realidade não correspondia à versão idealizada vendida pela sociedade.

“Lamento ter tido filhos e sido mãe, mas amo os filhos que tenho”, diz uma participante do estudo, mãe de dois adolescentes.

“Eu gosto que eles estejam aqui, simplesmente não quero ser mãe.”

 

Os poucos dados disponíveis indicam que esta sensação não é incomum.

Um estudo de 2023, realizado na Polônia, estima que 5 a 14% dos pais se arrependem da sua decisão de ter filhos e optariam por não ser pais, se tivessem uma nova chance.

Os pais podem não falar abertamente sobre o arrependimento, mas eles estão encontrando uma comunidade na internet.

Carmen percebeu que não estava sozinha quando entrou no grupo do Facebook I Regret Having Children (“Eu me arrependo de ter filhos”, em tradução livre), com 96 mil membros espalhados pelo mundo.