Chile se torna o primeiro país das Américas a eliminar a hanseníase como problema de saúde pública, afirma OMS.

O sistema de saúde do país manteve vigilância ativa por décadas; o Chile não registra transmissão local desde 1993 e, nas últimas décadas, identificou apenas casos importados da doença.

O Chile se tornou o primeiro país das Américas — e o segundo no mundo — a ter a eliminação da hanseníase oficialmente reconhecida, segundo anúncio feito nesta quarta-feira (4) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). O reconhecimento reflete mais de três décadas sem transmissão local da doença no território chileno.

De acordo com os organismos internacionais, o último caso da doença originado no próprio país foi registrado em 1993. Desde então, o sistema de saúde chileno manteve um trabalho contínuo de vigilância, com notificação obrigatória e preparo clínico para identificar rapidamente possíveis novos casos.

A certificação foi concedida após uma avaliação independente que confirmou a ausência de transmissão local e a capacidade do país de detectar e responder prontamente a eventuais casos importados.

A hanseníase, também chamada de doença de Hansen, é uma enfermidade infecciosa totalmente curável, mas que pode provocar danos permanentes nos nervos e causar incapacidades físicas quando não tratada precocemente. O diagnóstico em estágios iniciais é essencial para evitar complicações.

A doença é causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que afeta principalmente a pele, os nervos periféricos, as mucosas das vias respiratórias superiores e os olhos.

Apesar dos avanços no controle da enfermidade, a hanseníase ainda está presente em mais de 120 países e registra mais de 200 mil novos casos por ano em todo o mundo.

Mais de 30 anos sem transmissão local

A hanseníase foi registrada historicamente no Chile no final do século XIX em Rapa Nui, também conhecida como Ilha de Páscoa. No território continental, a presença da doença foi limitada, ocorrendo apenas introduções esporádicas que foram controladas por meio de isolamento e tratamento na própria ilha. Os últimos casos secundários foram tratados no fim da década de 1990. Desde então, o país não registra novos casos originados localmente há mais de três décadas.

Mesmo sem transmissão interna, a doença nunca deixou de ser monitorada. A hanseníase continuou classificada como enfermidade de notificação obrigatória, com acompanhamento por sistemas integrados de vigilância e preparação clínica permanente em toda a rede de saúde.

“Esta conquista histórica na saúde pública é uma demonstração clara do que liderança, ciência e solidariedade podem alcançar”, afirmou o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Segundo ele, o resultado mostra que doenças antigas podem ser superadas quando há compromisso político, serviços de saúde acessíveis, diagnóstico precoce e tratamento universal.

Avaliação internacional confirmou eliminação

O reconhecimento da eliminação da hanseníase foi concedido após um processo de avaliação conduzido pela OMS e pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a pedido do Ministério da Saúde do Chile.

Avaliação internacional confirmou eliminação

A verificação da eliminação da hanseníase no Chile ocorreu após um processo conduzido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a pedido do Ministério da Saúde chileno.

Em 2025, as entidades reuniram um painel independente de especialistas para avaliar se o país havia alcançado a eliminação da doença e se possuía capacidade de manter esse resultado ao longo do tempo.

A análise considerou dados epidemiológicos, sistemas de vigilância, protocolos de atendimento e estratégias de sustentabilidade do controle da doença.

As conclusões confirmaram a ausência de transmissão local e validaram que o país tem estrutura para identificar rapidamente e responder a possíveis casos importados, inclusive em populações não nativas.

A ministra da Saúde do Chile, Ximena Aguilera, afirmou que o reconhecimento é resultado de décadas de trabalho contínuo em prevenção, diagnóstico precoce e tratamento.

Segundo ela, o país também mantém o compromisso de garantir atendimento digno às pessoas afetadas pela doença, livre de estigma e discriminação.

Vigilância e treinamento mesmo com poucos casos

Mesmo com incidência muito baixa, o Chile manteve ações permanentes de vigilância e capacitação de profissionais de saúde.

Entre 2012 e 2023, o país registrou 47 casos de hanseníase, todos classificados como importados, sem transmissão local.

O modelo de atendimento funciona de forma integrada:

  • unidades de atenção primária são a porta de entrada para casos suspeitos;
  • pacientes são encaminhados para serviços especializados em dermatologia;
  • o tratamento e o acompanhamento são realizados com apoio multidisciplinar.

As equipes de saúde também recebem treinamento alinhado à estratégia “Rumo a Zero Hanseníase”, da OMS. O sistema prioriza diagnóstico precoce, prevenção de incapacidades e acompanhamento contínuo, incluindo suporte com fisioterapia e reabilitação.

Marco para a região das Américas

Para a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a conquista do Chile representa um marco para a região e demonstra que a eliminação da hanseníase é um objetivo possível.

O diretor da entidade, Jarbas Barbosa, afirmou que o resultado reforça a importância de sistemas de saúde capazes de identificar rapidamente a doença e garantir atendimento integral às pessoas afetadas.

Segundo ele, o avanço também contribui para quebrar o ciclo entre doença e pobreza, já que a hanseníase historicamente afeta populações em situação de maior vulnerabilidade social.

Desde 1995, a OPAS e a Organização Mundial da Saúde (OMS) fornecem gratuitamente aos países das Américas a terapia multidrogas, considerada o tratamento padrão da doença. O acesso contínuo aos medicamentos é fundamental para curar pacientes, evitar sequelas e interromper a transmissão.

Eliminação não significa fim da vigilância

A eliminação da hanseníase é definida pela ausência de novos casos autóctones — aqueles que surgem no próprio país — por pelo menos três anos consecutivos após cinco anos sem transmissão.

Mesmo após o reconhecimento internacional, o Chile deverá manter vigilância permanente e continuar notificando eventuais casos à OMS.

Entre as recomendações feitas pelo painel de especialistas estão:

  • manter sistemas ativos de monitoramento da doença;
  • preservar a experiência clínica necessária para o diagnóstico;
  • estabelecer um centro nacional de referência;
  • ampliar a capacitação de profissionais de saúde.

    Hanseníase é totalmente curável, mas pode causar sequelas sem tratamento

    A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae. Ela afeta principalmente a pele, os nervos periféricos, as mucosas das vias respiratórias superiores e os olhos.

    Quando não tratada, a enfermidade pode provocar lesões permanentes nos nervos e incapacidades físicas. No entanto, a doença é totalmente curável com o uso da terapia multidrogas, e o diagnóstico precoce é fundamental para evitar complicações.

    Apesar dos avanços no controle da doença, a hanseníase ainda está presente em mais de 120 países e registra mais de 200 mil novos casos por ano em todo o mundo.

    Com a certificação da eliminação da hanseníase, o Chile passa a ser o 61º país do mundo e o sexto nas Américas a eliminar pelo menos uma doença tropical negligenciada, juntando-se a Brasil, Colômbia, Equador, Guatemala e México.

    No cenário global, o Chile torna-se o segundo país do mundo a alcançar a eliminação da hanseníase, depois da Jordânia.

 

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