Pesquisas investigam como a redução dos movimentos faciais provocada pela toxina botulínica pode interferir no processamento das emoções, no humor e até em aspectos da vida sexual
Conhecida principalmente por sua utilização em procedimentos estéticos, a toxina botulínica também vem sendo estudada por possíveis efeitos que vão além da redução temporária de rugas e linhas de expressão.
Pesquisas apontam que limitar determinados movimentos da face pode modificar alguns mecanismos envolvidos na expressão e no processamento das emoções. Uma das explicações investigadas pelos cientistas está relacionada à chamada hipótese do feedback facial, segundo a qual os movimentos do rosto não apenas demonstram o que uma pessoa sente, mas também participam da maneira como o cérebro processa determinadas emoções.
Expressões faciais também participam da comunicação
Durante uma conversa, as pessoas observam e, muitas vezes de forma involuntária, reproduzem pequenas expressões umas das outras. Esse processo de imitação facial está associado à interpretação de sinais emocionais durante as interações sociais.
Ao reduzir temporariamente a movimentação de determinados músculos, a toxina botulínica pode interferir em parte desse mecanismo.
Um estudo sobre o processamento emocional constatou alterações na percepção de estímulos emocionais discretos após aplicações de toxina botulínica. Outra pesquisa identificou mudanças na capacidade de reconhecer gradualmente determinadas expressões faciais.
Pesquisas mais recentes também observaram mudanças na expressão de emoções específicas após as aplicações. Um estudo publicado em 2024 encontrou redução na identificação de expressões de raiva e surpresa depois do procedimento, enquanto expressões felizes e neutras não apresentaram mudanças significativas no mesmo experimento.
O cérebro recebe informações dos músculos da face
O interesse científico sobre o tema está relacionado à relação entre corpo e cérebro.
Quando alguém sorri, franze a testa ou demonstra preocupação, os músculos faciais enviam sinais que participam do processamento cerebral da experiência emocional.
Experimentos com neuroimagem já identificaram que a redução do movimento dos músculos responsáveis pelo franzimento da testa pode alterar a atividade de regiões cerebrais associadas ao processamento das emoções, incluindo a amígdala.
Isso não significa, porém, que uma pessoa que utiliza botox deixe de sentir emoções. Os estudos investigam alterações específicas em mecanismos de feedback e expressão facial, e não um desaparecimento geral da capacidade emocional.
Estudos também analisam possíveis efeitos sobre o humor
Outro campo de pesquisa envolve a possível relação entre toxina botulínica e sintomas depressivos.
Uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados encontrou melhora dos sintomas de depressão em grupos que receberam aplicações de toxina botulínica em músculos da região superior da face quando comparados a grupos placebo.
Os próprios pesquisadores, entretanto, destacam que ainda não é possível determinar completamente quanto desse efeito resulta das alterações musculares e quanto pode estar relacionado aos benefícios estéticos percebidos pelos participantes.
Outros trabalhos sugerem que o local onde a toxina é aplicada pode ser relevante, já que músculos envolvidos em diferentes expressões enviam tipos distintos de feedback ao sistema nervoso.
Possível relação com a função sexual também é investigada
Pesquisadores também levantaram a hipótese de que expressões faciais associadas à excitação e ao prazer possam integrar a resposta corporal durante experiências sexuais.
Um estudo sobre emoções corporificadas observou possíveis alterações na função sexual após tratamentos faciais com toxina botulínica, incluindo relatos de mudanças na experiência sexual entre participantes da pesquisa.
As evidências nessa área, porém, ainda são limitadas e não permitem afirmar que o botox cause necessariamente dificuldades sexuais em quem realiza o procedimento.
Evidências ainda estão sendo aprofundadas
Uma revisão científica publicada em 2025 analisou estudos sobre toxina botulínica, imitação facial, feedback emocional e regulação do humor. Os autores destacaram que existem evidências de interação entre os tratamentos faciais e mecanismos emocionais, mas também apontaram a necessidade de pesquisas adicionais para compreender a dimensão e a relevância clínica desses efeitos.
Assim, embora a toxina botulínica tenha como efeito conhecido a redução temporária da atividade muscular, suas possíveis repercussões sobre emoções e comportamento continuam sendo objeto de investigação.
Os estudos reforçam uma ideia já conhecida pela neurociência: expressões faciais não servem apenas para mostrar aos outros o que sentimos — elas também podem participar da maneira como o próprio cérebro interpreta determinadas experiências emocionais.
